Reflexões de uma escaladora que não foi a Patagônia

Atualizado: 9 de mar.


Desta vez eu não fui. Para falar bem a verdade, já faz 8 anos que não vou para a Patagônia. Mas nem sempre foi assim. Houve um momento da minha vida que decidi me dedicar exclusivamente para a escalada. E nesta época eu cheguei a ir para a Patagônia, na região de Bariloche, por 6 anos consecutivos. Para Chalten eu nunca fui. Não me sentia preparada. Então fui me preparar, isso levou alguns anos. Aprendi a escalar no gelo e escalar grandes paredes, em lugares como Yosemite e Salinas/RJ. E quando finalmente me senti pronta para ir, com chances reais de subir alguma daquelas agulhas impressionantes de El Chalten, eu fiquei grávida.


Cume da Agulha Campanille. Frey/Bariloche jan 2008

E aqui estou eu passando mais um verão no Brasil e cuidando deste ser que é o amor da minha vida, mas além de tudo, minha responsabilidade.

Diferente de muitas escaladoras que vivenciam a maternidade, eu consigo ainda manter uma rotina de escalada. Porque sim, tenho privilégios, que grande parte da população não tem. Porém, temporada na Patagônia ainda é uma coisa difícil de realizar, principalmente se falarmos de Chalten. Onde para você ter alguma chance de concretizar uma escalada você precisa de tempo. Talvez 30 dias? 40 dias? E você sendo mãe é possível deixar o filho tanto tempo assim? Quem cuida? Sem falar na disponibilidade para realizar o treinamento físico necessário para escalar naquelas agulhas.

Pois é neste lugar que eu gostaria de chegar. Será que todos aqueles escaladores que culminaram alguma agulha em Chalten não tem filhos? Ou talvez alguma mulher ficou cuidando de tudo para que ele pudesse viver o seu sonho?

E nós, mães e escaladoras não temos sonhos? A maternidade para a mulher representa abrir mão dos seus sonhos? E não venha me dizer que se eu queria escalar em Chalten não deveria ter tido filhos. Porque homens não precisam escolher entre viver o sonho ou viver a paternidade. E eu também não quero fazer esta escolha. Não me parece justa. Quero viver tudo!!


Cume da Agulha Principal com Luana Hudler e Andrea Dalben Frey/Bariloche fev 2012

Com o feito da escaladora Gisely Ferraz, que recentemente subiu o Fitz Roy guiando as cordadas crux da via Afanassief, fico aqui me perguntando porque, nós mulheres, demoramos tanto para chegar neste cume. E a resposta veio com muita clareza. Porque nós não temos nem sequer a oportunidade para realizar tal feito. O fato é que nem ao menos temos notícias de brasileiras que tentaram escalar o Fitz Roy nas últimas temporadas. A realidade é que nós mulheres e escaladoras não temos nem a chance de tentar, de nos dedicar ao esporte para a realização de tal feito. Para nós é deixada a responsabilidade de gerenciar o lar, a família e dar apoio para que o homem realize seus desejos e sonhos. Como escaladora que sou, cito aqui o exemplo da escalada de uma grande montanha, porém o mesmo acontece em diversas outras instâncias. Da maneira como a sociedade é engendrada há centenas de anos, a mulher é colocada em um papel secundário, onde sua função é apoiar o companheiro para que ele possa brilhar fora de casa, seja profissionalmente ou na realização de algum hobby. Pois bem, quem quer brilhar aqui sou eu. Deve ser por isso que estou solteira.

Entenda que não quero apontar culpados, mas apenas trazer a luz o fato que nós mulheres, por imposicão da sociedade, somos levadas a trilhar caminhos que nos afastam dos nossos sonhos e desejos de realização pessoal.


Gisely Ferraz no Cume do Fitz Roy fev 2022.

Eu conheço pelo menos umas 5 escaladoras brasileiras capazes fisicamente e tecnicamente de realizar a ascensão de grandes montanhas, seja Fitz Roy ou Half Dome, porém elas estão cuidando de seus filhos, já que não tem ninguém que faça isso para elas. Ou que dê apoio para que possam se dedicar ao esporte. Já vi muito olhar torto quando peço para ficarem com a minha filha para que eu possa escalar. Se ainda fosse para trabalhar né? Pois então, já que este mês é comemorado o Dia da Mulher, continuo aqui minha campanha, apoie uma mulher diariamente para que ela também possa viver o seu sonho.




obs: reflexões que surgiram a partir da minha realidade e da realidade de mulheres que convivem comigo. Se essa não é a sua realidade, sinta se privilegiada!


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